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Som Fatal

Som Fatal

2018

CAPÍTULO I- “Diferenças”

Num tempo muito remoto, numa cidade de Torres Novas, em Portugal, viviam Raquel e Tomás Cordeiro, dois empresários muito bem sucedidos e, por isso, muito ricos e poderosos. Viviam na sua mansão com quatro suítes, três quartos, uma sala de estar enorme e uma cozinha, onde trabalhava habitualmente Mariana Borges, a empregada.

Na mansão Cordeiro, viviam ainda os dois filhos do casal: Raquel e Ricardo. A primeira citada era a filha perfeita, muito inteligente e bem sucedida, trabalhando como directora chefe num laboratório muito prestigiado e conhecido mundialmente, o Laboratório Citocinese. Já Ricardo, tornou-se mecânico na sua própria oficina, de nome “Estrôncio”. Os pais tinham uma certa preferência pela Raquel, excluindo sempre o seu primogénito. Isto criava uma grande revolta por parte do filho do casal, que a tentava controlar o melhor que podia.

No outro lado da cidade, existia um mercado, onde Mariana costumava abastecer a dispensa da mansão. Neste local, as bancas mais requisitadas eram a da carne, que pertencia à irmã da empregada, Carolina Borges e as bancas do pão e do peixe, pertencentes aos irmãos Francisco e Henrique Alves, respetivamente.

Os irmãos criticavam constantemente Carolina e vice-versa, insultando-a e insinuando que os seus produtos não eram de qualidade.

Tal como Mariana, existiam outras frequentadoras habituais do mercado. Uma delas era Catarina Alves, uma mulher de Deus, vizinha de Joana Carola. Esta última pertencia a uma família pobre e era mãe de um rapaz com um excelente coração, Bernardo Lopes. Desde a morte do seu pai, o frágil adolescente vivia para a sua livraria, que se situava no centro da cidade. Trabalhava arduamente para sustentar a sua família e, nomeadamente, as suas duas irmãs: Madalena e Inês Lopes.

Com o passar do tempo, Raquel ganhava cada vez mais prémios de mérito a nível mundial, sendo bastante elogiada por esses feitos em casa. Ricardo, por outro lado, era tratado como uma espécie de segunda opção.

Numa noite de lua cheia, dia 4 de fevereiro de 2017, começou a pensar em como iria executar o seu plano para tirar a vida a seus pais, pois não aguentava mais que pensassem que ele não tinha qualquer valor. Provavelmente, não era bem essa a ideia que os pais tinham de um filho seu, mas, como Ricardo não conseguia manter durante mais tempo a sua raiva acumulada que “gritava” dentro de si, decidiu colocar em prática o plano que engendrou. Na sua ótica, só se eles desaparecessem é que ele conseguiria viver em paz.

Acordou às 04:44h da manhã, certificou-se de que a irmã estava a dormir e foi até ao quarto dos pais. Pegou numa almofada e bloqueou-lhes momentaneamente as entradas de oxigénio para o corpo, provocando-lhes um desmaio. Lançou-os, posteriormente, pela janela para dentro de uma carrinha que um contacto seu tinha trazido. Pagou ao seu amigo e o mesmo levou os seus progenitores para uma cave na sua oficina. Era uma divisão secreta que serviria de cativeiro dos pais até Ricardo querer. De seguida, foi rapidamente à cozinha fazer um pequeno corte na mão para fingir que tinham sido alguns ladrões quaisquer e não ele que tinha feito aquilo. Dirigiu-se, seguidamente, ao quarto da Raquel. Acordou-a de loucamente e de repente, fingindo estar constrangido.

- Raquel!!!! Não… Não pode ser… Nem sabes o que aconteceu! Meu Deus. Não sei o que dizer. Porque é que não fui capaz de fazer nada? Sou mesmo um inútil…- exclamou Ricardo, fingindo estar perturbado e espalhando sangue pelo quarto.

- O que é que se passou de tão grave assim, Ricardo? Desembucha, vá! – retorquiu Raquel, começando a ficar preocupada.

-Os pais, os pais… Alguém entrou cá em casa e os levou! Eu tentei impedi-los, mas eu estava em minoria. Até me cortaram. Vês? – continuou o rapaz, mostrando o golpe falso – E também te chamei, mas parece que não ouviste nada. Estavas a dormir, como se costuma dizer, que nem uma pedra!

- O quê? Os pais? Mas porquê eles? – exaltou-se a filha de Tomás, já chorando.

- Devem querer pedir um resgate… Eu não sei, não me perguntes! Já estou alterado o suficiente.

Raquel virou-se para pegar no telemóvel e o seu irmão sorriu maliciosamente, sem ela dar conta.

CAPÍTULO II- “Amor à primeira vista”

       Depois de saber das trágicas notícias sobre os seus pais, Raquel tinha a cabeça às voltas. Já não conseguia sequer pensar e muito menos sabia o que fazer.

Para evitar entrar numa grande depressão, tinha de arranjar algo para se distrair. Como tinha tirado alguns dias para descansar do laboratório, decidiu tentar praticar um pouco de desporto, mas não conseguiu manter a prática de actividade física durante muito tempo. A sua física era mais de outro tipo.

Depois dessa tentativa falhada, tentou adotar um animal. No entanto, o canil estava fechado nesse dia e Raquel pensou que era o destino que lhe estava a tentar transmitir alguma coisa e não seria aquela a distracção ideal para si.

Experimentou, posteriormente, ficar apenas no sofá a ingerir grandes quantidades de gelado de morango enquanto assistia séries. Mais uma alternativa deitada para o lixo; por cada episódio que passava na televisão, a cientista ia lembrando-se cada vez mais dos seus pais, limpando as lágrimas da cara constantemente.

Estava a ficar sem opções até que se lembrou de algo: a leitura. Rapidamente se vestiu, foi até ao centro da cidade e entrou na primeira livraria que viu.

Assim que passou pela porta de madeira, que rangia de tão velha que era, um homem baixo e magro, com cabelo preto encaracolado e olhos castanhos olhou para ela. Era o vendedor da loja. Raquel sentiu que era amor à primeira vista, algo em que não acreditada até àquele momento. Claro que corou e ficou envergonhada e, por acaso, o mesmo aconteceu com o dono da livraria. A cliente concluiu, pela etiqueta que exibia no seu peito, que o seu nome era Bernardo Lopes. Os dois não sabiam como agir e, por isso, cada um continuou o que deveria fazer, trocando, de vez em quando, uns olhares amorosos.

O primeiro livro da saga “Hunger Games”, um dos seus filmes preferidos por ser protagonizado pela atriz Jennifer Lawrence, foi a escolha da rapariga, que, a medo, se dirigiu até à caixa de pagamento. Quando esticou a mão com a nota para finalizar a compra, o rapaz atrás do balcão tocou-lhe suavemente na mão. Isto levou-a a corar novamente. Bernardo fez um desconto de 50% na compra.

De seguida, a jovem prosseguiu para casa e, numa só noite, leu o livro inteiro (ou quase) para visitar mais vezes aquela livraria, pois pensava que era aquela a morada do seu amor verdadeiro.

Depois de fechar o seu estabelecimento, passadas umas 3 horas da saída da sua agora amada, Bernardo ficou toda a noite a pensar em Raquel. Fez login no Facebook e decide fotocopiar algumas fotos de Raquel para colocar ao lado da sua cama, numa mesinha de cabeceira.

No dia seguinte, na mansão Cordeiro, a porta de saída abria cedo. A irmã de Ricardo levantou-se mais alegre do que era costume ultimamente, pois achava que o seu coração estava, de certa forma, mais “completo”.

Deixa a casa e dirige-se à “Livraria Lopes”. Provoca mais alguns barulhos ensurdecedores ao entrar e espanta-se quando verifica que estava presente em cima da mesa de Bernardo uma jarra de rosas.

A escolha do livro foi rápida e fácil, desta vez, uma vez que tinha decidido que iria acabar de ler a saga que tinha começado no dia anterior. Colocou o livro de baixo do braço e foi até junto da caixa registadora. Como Bernardo já tinha deduzido que ela iria escolher o próximo volume, tinha rasgado uma das páginas. Usou ele essa desculpa para ir buscar outro exemplar, que continha uma carta de amor para a sua cliente.

Depois de ter pago o livro e ter recebido uma das mais cheirosas e bonitas rosas que já tinha tido em sua posse, Raquel foi para casa e começou a ler o mesmo.

Chega rapidamente à décima página e, para seu espanto, um pequeno papel dobrado em quatro esperava-a lá. Abriu-o rapidamente, com esperança que fosse algo que a pessoa por quem estava apaixonada tivesse escrito.

Na carta amorosa, podíamos ler: “Raquel, és a rosa mais bonita do meu jardim. Sei agora que Camões estava correto quando dizia que o amor é uma chama que arde sem se ver. Desde o primeiro minuto que te vi que senti algo forte, algo muito verdadeiro dentro de mim.”. No canto da folha, estava uma espécie de gatafunho, mas que Raquel percebeu era a assinatura de Bernardo.

Ficou tão contente que pegou no primeiro papel que viu e escreveu-lhe de volta: “Meu anjo, doeu quando caíste do céu? Ainda estou a fazer uma pesquisa sobre qual é a frase mais pirosa que posso colocar aqui, mas, quando puderes, liga-me.” Escreveu o seu contacto ao fundo da folha, dobrou-a várias vezes e deixou-a em cima da mesa do seu quarto.

Os dois pombinhos estavam cada vez mais apaixonados e iriam certamente continuar a escrever um ao outro. Conseguirá Raquel continuar animada e esquecer um pouco os pais? Os dois ficarão juntos? E Ricardo, o que irá decidir fazer aos seus parentes? Se querem saber as respostas às anteriores perguntas, fiquem atentos ao próximo capítulo.

CAPÍTULO III- “Amor, amor e mais amor”

Raquel e Bernardo estavam a avançar cada vez mais na sua relação. No dia 19 de abril, quando Raquel tinha ido à livraria com o objectivo de comprar o último volume da colecção que estava a ler, o livreiro decidiu impor-se e colocou um novo bilhete dentro do livro vendido, onde pedia que a rapariga fosse assistir um filme a casa dele na sexta-feira à noite. O plano era jantarem e assistirem um filme, mas ele queria, na verdade, pedi-la em namoro.

Quando a pretendida chegou a casa e viu o bilhete, ficou louca de entusiasmo, embora também um pouco receosa, pois pensava que Lopes iria querer avançar demasiado rápido na relação e ela não se sentia ainda preparada para isso naquelas circunstâncias. O rapto tinha-lhe provocado uma grande instabilidade emocional. Mesmo assim, depois de ter pensado algum tempo sobre o assunto, decide regressar à livraria e aceitar o pedido de Bernardo.

Depois de ouvir uns pequenos ruídos feitos pelo embater dos pés de Raquel na calçada, o rapaz dirige-se à porta e verifica que lhe tinha sido deixado um bilhete. Abriu-o e teve uma avalanche de emoções, uma das melhores coisas que tinha sentido em toda a sua vida.

Finalmente tinha conseguido arranjar uma pessoa que correspondesse às suas ideias de “namorada” ou até mesmo de alma gémea; era a cientista alguém com quem ele se imaginava a viver a sua vida inteira.

Tinha de começar a preparar tudo para o seu encontro amoroso. Além de ser bom em literatura, também era um bom cozinheiro e essa parte não era, por isso, um problema. As palavras eram o que mais o preocupava. Como queria que não falhasse nada, começou nesse mesmo momento a procurar dicas em livros da sua loja. Eram imensos, mas, como queria impressionar a sua convidada, tinha questão de ler a maior quantidade possível de obras. Umas eram romances históricos e outras apenas histórias de amor clichês. Era também imprescindível escolher a decoração que iria colocar por toda a casa e comprar um grande buquê de flores lindas para oferecer a Raquel. Pensava comprar tudo isto depois de fechar a livraria.

A menina Cordeiro tinha chegado a casa e, tal como Bernardo, também começava a pensar no encontro do dia seguinte.

            Primeiramente, tinha de comprar um vestido novo. Como não tinha nada para fazer o resto dia, por estar de férias, fez questão de sair novamente de casa e deslocar-se a uma das lojas mais chiques (a valer) da cidade, uma vez que dinheiro não lhe faltava. Comprou um elegante vestido vermelho, que lhe fazia sobressair a silhueta.

            Um presente era uma boa ideia e a rapariga pensou que um relógio topo de gama da marca “ONE” era ideal. Naquele dia, certamente, não olhava, de todo, para a carteira. Foi ao shopping da cidade e recorreu a uma das relojoarias mais famosas para comprar o mesmo.

            Voltou a casa e refletiu, para garantir que estava tudo pronto. Com a intenção de aperfeiçoar ainda mais a noite, lembrou-se de levar uma das garrafas de champagne que armazenava na prateleira da sala para beberem enquanto viam o filme.

            Posteriormente a toda aquela agitação, Raquel foi dormir.

            Depois de realizar todas as suas compras, limpar minuciosamente e decorar a sua casa, Bernardo fez o mesmo.

            Os dois sonharam um com o outro.

            Quando acordaram, mesmo que um pouco nervosos, estavam mais felizes do que nunca, pois sabiam que iria ser um dia muito importante e inesquecível na vida de ambos.

            O dia passou devagar até que chegou a hora do tão esperado encontro.

            A convidada chegou ao destino, uma casa humilde, mas bonita à sua maneira. As paredes estavam pintadas de branco, com um rodapé de tom amarelado. Na parte frontal, um jardim onde eram presentes várias espécies de catos, a espécie vegetal preferida de Bernardo pelo facto de não precisarem de grande cuidado, recebia quem ali entrasse de forma excecional.

            Bateu à porta e foi recebida pelo seu anfitrião, que lhe deu um beijo no rosto. Disse-lhe para se sentir à vontade, já que o resto da sua família não estava em casa. Para se sentirem mais confortáveis e livres, o rapaz tinha pedido à mãe e às irmãs para dormirem, naquela noite, em casa da vizinha Catarina.

            A casa estava coberta de pétalas de rosa, iluminada por velas e cheirava ao perfume de Bernardo. Estaria Raquel no paraíso?

            O jovem começou por mostrar à sua amada os seus dotes de violinista, dado que sabia que ela adorava o som daquele instrumento.

            De seguida, o jantar, pato no forno com aroma de laranja, era servido. Para beber, a escolha era um dos melhores vinhos rosé da loja.

            Começaram a comer e, quando Raquel acaba de beber o primeiro copo de vinho, fixa-se nos olhos de Bernardo, que brilhavam como duas estrelas, mostrando que o amor que sentia por ela era do mais verdadeiro que se possa imaginar.

            Era a situação ideal para Bernardo verificar se o seu amor era correspondido. O apaixonado levanta-se e, com uma voz doce e sorrindo, realiza o pedido de namoro.

            Raquel não se conseguiu conter. Amava tanto aquele simples vendedor de livros… Era algo que não conseguia controlar. Aceitou, obviamente.

            Beijaram-se carinhosamente.

            Acabada a sobremesa, uma fantástica mousse de manga, foram ver o filme, aconchegados confortavelmente no sofá.

            A opção era um filme romântico para entrarem no clima. Contudo, a conversa era demasiada para estarem realmente com atenção ao filme.

            Ainda não tinham parado de verter a bebida trazida por Raquel para os copos e, quando foram a olhar para a garrafa, já só continha poucas gotas. Por não estarem habituados a ingerir bebidas alcoólicas em grandes quantidades, já não estavam em si.

            Deixaram-se levar pelo momento. Já não preciso de concretizar o que aconteceu posteriormente… Apenas posso adiantar que foram usados métodos contraceptivos.

            O casal estava mais do que apaixonado e certamente iriam viver felizes para sempre.

CAPÍTULO IV- “A fuga”

            Acordaram tarde no dia seguinte, com algumas enxaquecas, causadas pela ressaca que sentiam da noite anterior. Levantaram-se da cama quando já passavam quinze minutos do meio dia. Dirigiram-se à cozinha, ainda ensonados, e limitaram-se a comer algumas fatias de pão integral com queijo cremoso, pois não estavam com muita fome.

            - Bernardo, tenho algo para te dizer. – interviu Raquel, enquanto Bernardo levava a primeira fatia de pão à boca – Estou completamente apaixonada por ti e vejo-me a viver contigo para sempre, por isso, acho que era uma boa ideia começarmos à procura de uma nova casa ainda hoje. A nossa relação já dura há algum tempo e confio em ti o suficiente para fazermos a nossa vida em conjunto, como um verdadeiro casal. Estás disposto a isso?

            O interpelado engasgou-se e até lhe vieram as lágrimas aos olhos. Estava tão feliz…Perante aquela pergunta, nem conseguia dizer nada; apenas a contemplava e soltava uns pequenos risinhos. Correu, finalmente, até ao outro lado da mesa e abraçou-a, segredando-lhe uma resposta afirmativa. Viver com a pessoa que mais amava era, agora, possível.

            A procura pela nova habitação começou passados alguns instantes.

A filha de Tomás e de Raquel estava cada vez mais apaixonada e, por isso, ia esquecendo-se, pouco a pouco, da tristeza que sentia, causada pelo desaparecimento dos pais. Seria isto bom ou mau? Provavelmente, seria algo favorável, dado que precisava de se animar depois de todo aquele sofrimento por que tinha passado. O melhor era mesmo deixar as autoridades competentes fazer o seu trabalho; continuar a procurar pistas ou a lamentar-se não lhe valia de nada.

            Ainda não tinha contado ao seu namorado acerca do acontecimento, uma vez que não queria voltar a lembrar-se do mesmo. Os dois ainda não tinham falado sobre a família e o vendedor de livros pensava apenas que os pais da sua correspondida estavam apenas a viver noutro local.

            Entretanto, enquanto os dois apaixonados estavam na sua demanda online pela sua nova casa, os pais de Raquel permaneciam em condições deploráveis na cave da oficina do seu filho.

            A divisão era como uma casa com 10m2. Era presente um colchão estragado e antigo, com as molas já partidas; uma pequena mesa redonda e baixa, onde Ricardo servia comida nojenta; um pequeno poliban já com bolor por causa da humidade; dois banquinhos de madeira frágeis e pequenos; e, ao lado deles, estava uma sanita, que, como estava entupida, fazia com que aquela pequena divisão tresandasse.

            O raptor ia lá deixar os bens essenciais, como água e comida, uma vez por dia. O casal Cordeiro não estava habituado a viver em condições daquele tipo, pelo que Raquel chorava mares imensos de lágrimas a cada dia que passava.

            Tomás não poderia deixar que continuassem naquele local horrendo. À medida que os dias iam passando, ia pensando numa forma de escaparem daquele cubículo desumano e sair da posse do seu filho mais velho.

            Certo dia, pôs-se a analisar a cave ao pormenor e concluiu que só poderia haver uma saída: uma velha janela com grades, no cimo da parede, manchada com tinta branca e óleo para carros.

            Empilhou algumas velhas e poeirentas caixas que permaneciam imóveis no canto há, pelo menos, alguns anos e subiu acima delas para ver qual era a verdadeira estrutura da janela.

            Para pouco espanto do casal, dado que conheciam a inteligência do seu filho (que não era muita), a grade que protegia a janela estava aberta e era só partir o vidro para arranjarem uma forma de saírem dali.

            Como é que não tinham pensado nisto antes? Não tinham posto esta hipótese, pois, durante aquele período de tempo, a janela estava tapada por um trapo velho, não deixando entrar luz natural. Como a divisão era tão pouco iluminada, Ricardo tinha apelado à sua piedade e destapou-a, com objectivo de conceder um pouco de dignidade aos seus progenitores.

            Prosseguiram, então, à desfeita em pedaços da janela, seguida da sua fuga conjunta.

            Quando saíram, deram por eles na Rua de Santa Catarina e correram até casa, que não era muito longe dali. Para muito espanto dos dois, quando chegaram, a porta da mansão estava fechada e os estores completamente cerrados. Começaram, subitamente, a pensar no pior; teria acontecido algo à sua querida filha?

            Ao contrário do que os dois pensavam, a mesma encontrava-se mais feliz do que nunca na sua nova casa, para a qual se tinha mudado há cerca de dois dias. A mesma era fenomenal, tendo ginásio e piscina privados e um total de 10 divisões espaçosas.

            Os pais não sabiam o que fazer; não tinham nenhum meio de comunicação na sua posse e não sabiam a quem pedir ajuda. Decidiram, então, esconder-se no seu abrigo subterrâneo secreto, que tinham construído para o caso de uma situação como esta acontecer. O mesmo estava abastecido para sustentar várias pessoas durante um bom período de tempo, portanto, não haveria problema e iriam permanecer ali até conseguirem engendrar um bom plano para contactarem com a sua filha e saírem dali.

            No decorrer disto, a cientista tinha comprado dois bilhetes para a Dangerous Woman Tour, uma das melhores turnês mundiais que estavam a acontecer neste ano. Surpreendeu o seu amado com os bilhetes no mesmo dia do concerto e, dado isso, tinham de partir imediatamente para Lisboa se não queriam perder o concerto.

            Já na capital, decidiram comer algo antes do concerto.

            O concerto, que durou cerca de duas horas, como já esperavam, foi algo surreal. Adoraram cada segundo e mais ainda os vocais poderosos da cantora Ariana Grande. Quem diria que uma cantora tão pequena poderia possuir um talento tão grande…

            De seguida, Bernardo era surpreendido novamente por Raquel, que lhe mostrara a chave de um quarto de hotel de renome na baixa de Lisboa.

            Passaram os dois uma noite muito íntima naquele sítio luxuoso, enquanto Raquel e Tomás permaneciam no refúgio em Santarém.

CAPÍTULO V – “Felicidade milagrosa”

       Raquel e Bernardo estavam cada vez mais apaixonados. Encontravam-se já a viver juntos e o rapaz já começava a pensar em propor-se à pessoa a quem o seu coração pertencia verdadeiramente em casamento.

            Por outro lado, os pais de Raquel não estavam nas mesmas circunstâncias, estando ainda escondidos no abrigo de segurança, uma vez que não tinham um lugar seguro onde se dirigir, posteriormente a fugirem da horrível cave de Ricardo. Era arriscado tentarem sair, pois o seu filho poderia vê-los ou saber que alguém os tinha topado na rua e, assim, apanhá-los novamente.

            Entretanto, estava a cientista quase completamente esquecida dos pais e Bernardo, por não saber do acontecimento, não mostrava interesse nem a incentivava à procura.

            Tomás e Raquel estavam, por enquanto, seguros, já que o abrigo tinha condições suficientes para garantir a sua sobrevivência durante um bom período de tempo. Claro que não poderiam viver ali para sempre e, por essa razão, tinham de começar a pensar num plano para encontrarem a sua filha. Certos dias, Raquel sentia-se em choque… Não conseguia ainda acreditar em tudo aquilo… Como teria sido o seu próprio filho capaz de a deixar a sofrer daquela maneira? Ricardo era, de facto, um psicopata.

            Passadas duas semanas no esconderijo, o casal tinha, finalmente, arranjado um plano. Tinham discutido sobre ele e iriam colocá-lo em prática o mais rápido possível. O objetivo principal era que ninguém os visse, pois poderiam criar alarido e esse chegar até Ricardo, facilitando-lhe o trabalho de os encontrar e isolá-los novamente.

            Numa quarta-feira, perto das 8 da manhã, Raquel deixava o abrigo subterrâneo. Vestia um grande casaco de pele preto com um grande carapuço para lhe esconder a cara, evitando que alguém a conhecesse. Foi, em passo apressado, a uma pequena loja ali perto, que vendia telemóveis descartáveis. O plano era comprar um com algum dinheiro que tinham reservado no local onde passaram alguns dias e, posteriormente, contactar a sua filha para lhe falar sobre toda aquela confusa e triste situação. Chegou ao local pretendido e, como não estava mais ninguém a ser atendido, a compra foi rápida e segura. Voltou rapidamente para junto do seu marido, que a recebeu com um enorme abraço e lágrimas de alegria. O número de Raquel foi marcado pela sua mãe, que já o sabia de trás para a frente.

            -Sim, quem fala? – perguntou Raquel, que estava a almoçar com Bernardo. – Se é do laboratório, aviso já que me encontro de férias.

            -Somos nós, os teus pais. Conseguimos, até que enfim, fugir da cave onde o teu irmão Ricardo nos manteu escondidos e presos durante todo este tempo! – respondeu Tomás, contente por ouvir a voz da filha.

            -Mãe! Pai! Meu Deus, eu não estava mesmo nada à espera disto. Mas onde é que estiveram este tempo todo?! O que é que o Ricardo voz fez?! Mas que estúpido, nunca o irei perdoar por isto. Juro por tudo que vingar-me-ei dele! – gritava Raquel, deixando os pais sem espaço para falar no meio de todas aquelas perguntas e exclamações. – Agora temos de combinar o local onde nos podemos encontrar. Vamos dar preferência a um ponto de referência, onde, habitualmente, esteja muita gente, para ser mais seguro.

            Decidiram encontrar-se no Torreshopping, mais precisamente, em frente ao café do primeiro piso.

            Raquel disse a Bernardo que não havia tempo para explicações e que lhe contaria tudo depois de estar na companhia dos pais. Bernardo nem teve tempo de abrir a boca e decidiu que iria com ela para a mesma se sentir mais segura. Os dois saíram imediatamente, depois de Raquel ter contratado um táxi para transportar Tomás e Raquel.          

            Entretanto, acabadas as suas férias, Ricardo tinha voltado à sua oficina e foi muito o seu espanto quando observou a cave e a mesma estava vazia. Estava em apuros. Se a polícia o apanhasse, não escaparia, decerto, à prisão, dado que era a palavra de dois grandes empresários e uma cientista de renome mundial contra a de um mecânico simplório. Tinha de colocar em prática a escapatória que tinha planeado enquanto esteve ausente no trabalho.

            Quando Raquel chegou ao ponto de encontro, já os seus pais estavam lá. A mesma correu para os abraçar. A alegria era tanta que, mesmo sendo forte, não conseguiu conter as lágrimas. Os beijos e os abraços duraram cerca de 10 minutos. Comunicou que já tinha falado com a polícia da cidade para mandar procurar Ricardo na sua oficina, mas, contudo, a missão não iria ser bem sucedida, dado que ele já tinha saído do país. A filha ainda se desculpou pelo facto de ter parado de os procurar naqueles últimos dias, apresentando-lhes Bernardo.

            -Isso já não interessa, não te preocupes. Nós compreendemos que não podias ter feito mais do que fizeste. Ainda bem que deixaste a polícia fazer o seu trabalho e não interferiste. O que interessa é que estamos todos bem neste momento. E fico muito satisfeita por teres encontrado alguém com quem te identifiques verdadeiramente. Depois tens de me contar tudo mais pormenorizadamente lá em casa.

            Bernardo avançou e cumprimentou cada um dos, provavelmente, futuros sogros e, de seguida, meteram-se no carro e foram até ao novo lar de Raquel e Bernardo, ainda não conhecido pelos membros da família que tinham sido reavidos.

            Raquel e os pais já estavam juntos novamente e Ricardo estava a fugir, naquele momento, para Inglaterra. Certamente, Raquel não irá esquecer todas as atrocidades que o seu maléfico irmão havia realizado. Ricardo, tal como ela, também lhe ficará na memória o desejo de aniquilar o resto da sua família.           

            O clima começa a ficar cada vez mais dramático. Não percam o próximo capítulo.

CAPÍTULO VI – “Ascensão de Ricardo”

Agora que estava na companhia dos que mais ama, Raquel estava felicíssima. Nunca esquecia, contudo, a vingança que tinha prometido a Ricardo.

            Entretanto, Ricardo tinha chegado a Inglaterra, onde já o esperava, como combinado prévio, Cláudia John, o seu contacto inglês, no aeroporto. Começava a refletir sobre o que poderia fazer para ganhar algum dinheiro e, assim, reconstruir a sua vida naquele local. Pediu a Mrs. John algumas opiniões, até que ela lhe contou sobre uma plantação de médias dimensões de vários tipos de drogas. Na sua ótica, poderiam começar um grande negócio a partir daí. Ricardo ficou entusiasmado. Só tinha de arranjar os meios certos para que começasse a lucrar de forma extraordinária e construir um grande império de droga.

            Assim aconteceu e, passado algumas semanas, Ricardo era um dos suspeitos mais procurados de Inglaterra por ter a posse de um dos maiores negócios de droga no mundo. Vivia escondido num abrigo subterrâneo e as suas plantações eram cuidadas pelos seus demais empregados e localizados em locais onde ninguém pensaria em procurar. O sentimento que a sua irmã sentia por ele era mútuo. O seu plano estava a ser melhorado a cada dia. Alguns ataques eram planeados por ele e os seus estrategas, com o objetivo de causar dano emocional a Raquel antes de tentar o sequestro dos pais novamente.

            Durante todo este tempo, o mercado andava agitado, cheio de intrigas, coscuvilhices e conflitos entre as bancas (os habituais).           

            De um lado do mercado, a proprietária da banca de carne, Carolina, criticava constantemente as bancas dos irmãos Henrique e Francisco Santos. Claro que Mariana e Catarina, que se abasteciam em todas as bancas, passavam a informação de uma para outra e o ódio, por isso, era infernal.

            O principal tema de conversa era o sequestro dos pais de Raquel, que já se sabia por todo o mercado por causa da empregada. Os dois irmãos defendiam que Raquel tinha encenado todo este esquema para se livrar dos pais, enquanto Carolina permanecia do lado de Raquel, constatando que ela estava completamente inocente, tendo o casal Cordeiro sido verdadeiramente raptado.

            Com o passar do tempo, a fúria de Carolina ia ficando cada vez mais acesa até que, certo dia, decidiu sabotar as bancas dos seus rivais. Para realizar este feito, colocou, discretamente, um quilo de sal a mais na massa do pão, antes do mesmo ser cozido e polvilhou os peixes de Francisco com canela quando estes ainda se encontravam a ser transportados pelo mesmo a partir da carrinha que tinha vindo da doca.

            Os dois irmãos descobriram rapidamente: Henrique tinha provado o pão, como todos os dias e Francisco tinha retornado à carrinha para buscar outra caixa de pescada. Sabiam quem era, definitivamente, a culpada. Não hesitaram e começaram a atirar peixe e pão para cima dos produtos da dona da banca de carne, além de espezinharem tudo o que acabava por cair no chão. Resumidamente, o seu objetivo era deixar nada comestível. Queriam arruinar Carolina.

            Estava instaurado o caos total no mercado… Como podem deduzir, alguns habitantes de Torres Novas também não iam com a cara de Carolina e, por essa razão, decidiram juntar-se, também, à festa.

            Tudo se havia destruído. Carolina sentia-se, agora, arrependida… Iria ser difícil recuperar de todo aquele prejuízo. Começou a chorar desalmadamente. Os seus inimigos também não estavam em melhores condições, pois os seus produtos também não podiam ser vendidos; tinham de começar a reabastecer as bancas rapidamente para que começassem a ter lucro de novo.

            Ricardo encontrava-se numa posição favorável, enquanto os integrantes do mercado passavam por uma fase menos feliz. O que acontecerá agora? Ricardo irá esperar mais algum tempo ou irá “atacar” brevemente? O clima no mercado irá continuar tenso ou irá ser instaurada a paz? Não percam os próximos episódios, onde estarão as respostas a todas estas perguntas.

CAPÍTULO VII - "A partida"

Enquanto o mercado estava repleto de desentendimentos, rivalidades e muita confusão, Ricardo permanecia em Inglaterra, reinando uma das maiores redes de tráfico de droga mundiais. Já pensava no seu plano para conseguir vingar-se de Raquel e de seus pais; planeava-lhes uma morte lenta e dolorosa. Tudo tinha de ser muito bem pensado, uma vez que a polícia estava mais do que pronta para apanhar um criminoso do seu calibre.

            Raquel também se interrogava acerca da sua vingança. Os dois queriam encontrar-se, mas quem o faria primeiro?

            Apesar de a cientista querer focar-se no seu irmão, tinha de voltar ao trabalho; o laboratório estava um caos por causa da sua ausência.

            A filha do casal cordeiro voltava ao trabalho no dia seguinte. Certificou-se de que os pais ficavam seguros e com o máximo de conforto possível, para que conseguissem ultrapassar rapidamente aquela tragédia. Bernardo também tinha saído para trabalhar, já que não podia perder mais vendas de livros para que conseguisse mandar algum dinheiro para a sua casa de origem. Raquel estava receosa em deixar os seus pais sozinhos, mas, infelizmente, não tinha outra opção.

            Saiu de manhã, deixando o alarme ligado. Chegou ao laboratório e deparou-se com um dos piores cenários que já tinha presenciado em toda a sua existência. Eram corpos e sangue por todo o lado. Os tubos de ensaio que continham as substâncias que os cientistas do laboratório Citocinese exploravam estavam entornados em cima dos corpos já azulados. O que faria agora? Sabia que Ricardo estava por detrás disto… Teria ele se dado ao trabalho de fazer tudo isto só para arruinar a vida da sua irmã? Seria ele tão terrível a este ponto? Raquel soube, naquele momento, que sim. Raiva e tristeza inundavam o corpo da jovem. Chamou a polícia para vir investigar o local e voltou para casa, mais concretamente ao seu quarto, local em que ficava quase todo o dia durante o mês seguinte, saindo durante a noite apenas para comer alguma coisa do frigorífico.

            Raquel e Tomás tentavam recuperá-la, mas sem sucesso. A sua filha trancava-se no quarto, sem ter contacto direto com ninguém. Estava completamente a enlouquecer. Os seus dias eram passados a realizar pesquisas na Internet sobre aprendizagem de novas técnicas de combate. No que estaria ela a pensar?

            Certo dia, encontrou uma informação sobre uma arte marcial chinesa. Pesquisou acerca da mesma e entendeu que era o que correspondia aos seus ideais. Decidiu, por isso, partir o mais rápido possível em encontro do mestre professor.

            Colocou as suas poupanças, alguma comida embalada e umas roupas lavadas dentro de uma das suas malas de viagem e, nesse mesmo dia, à noite, saiu pela janela em direcção ao aeroporto, onde a esperavam um jato privado e uma equipa que tinha contratado para a ajudar na sua missão.

            A sua mãe ouvira o barulho e abriu a sua janela, estabelecendo contacto visual com a sua filha, mas não a impedindo de fazer o que estava mentalizada a.

            -Boa sorte, não faças nada de parvo. Confio em ti. Pensa sempre nas consequências que daí advêm antes de tomares uma decisão. Nós havemos de ficar bem. Até logo, filha. – despediu-se D. Raquel.

            Caiu uma lágrima pela cara de Ana Raquel e esta entrou para dentro do carro logo de seguida a ouvir estas palavras. Os pais, ela tinha a certeza de que ficariam seguros, pois tinha garantido isso com a equipa de protecção e espionagem que tinha contratado com esse fim.

            Será que Raquel estará tão segura quanto os pais? Ou estará a meter-se numa grande alhada da qual não conseguirá fugir? Teremos de esperar para ver.

CAPÍTULO VIII - "Etapas"

Raquel tinha chegado ao aeroporto, onde a esperava um jato privado, junto com alguns soldados que tinha contratado para a ajudar na sua demanda por Ricardo. Só tencionava voltar para casa quando aniquilasse o seu irmão, vingando, assim, os seus pais e todas as pessoas do laboratório, que tinham deixado este mundo demasiado cedo apenas por sua causa.

            A menina Cordeiro estava completamente possuída; vingança era a única coisa que lhe passava pela cabeça. Teria de se empenhar mais a cada dia que passava se queria que tudo aquilo desse frutos.

            O jato descolou em direção à China. Durante o caminho, não existiram muitas conversas entre a chefe de equipa e os seus novos companheiros.

            Em Inglaterra, Ricardo estava muito contente, pois o seu plano de ataque ao local de trabalho da sua irmã tinha sido bem sucedido. Encontrava-se, agora, a consumir vários tipos de drogas na companhia dos seus amigos para festejar o feito.

            Enquanto Ricardo dormia, após o dia de festa, a sua irmã viajava até à qual seria a sua casa nos próximos meses. Iria encontrar-se com um dos maiores mestres de técnicas da China, o Mestre Konitchiuá.     

            As supostas seis horas de viagem estavam a passar com extrema lentidão. Ao longo da mesma, Raquel mentalizava-se cada vez mais de que teria de trabalhar arduamente se queria, definitivamente, cumprir o seu objetivo principal.

            Finalmente, a equipa já saía do seu transporte aéreo. No ponto de aterragem, já os esperavam dois SUVs. Todos entraram nos veículos rapidamente, já que estavam ansiosíssimos por aprender as novas técnicas de combate.

            A viagem foi rápida e confortável. Tinham chegado ao templo e o Mestre Konitchiuá recebeu-os amigavelmente e lhes indicou onde iriam ser os seus aposentos.

            O templo era um edifício bonito: bem ornamentado, situado no cimo de uma montanha, escondido por algumas árvores gigantes e centenárias e rodeado de alguns campo de treino externos, frequentados pelos praticantes do Kotu, uma das técnicas marciais da China.

            Raquel instalou-se no seu quarto, que tinha tudo o que iria necessitar nos próximos meses: uma casa de banho higiénica, uma cama, uma pequena mesa de cabeceira e um roupeiro. Depois de desfazer a mala, foi ao encontro do líder do templo para uma visita guiada.

            Ao sair do quarto, lembra-se, subitamente, do seu verdadeiro amor, Bernardo. Esvai-se em lágrimas. Será que tinha feito a decisão certa? Deixar tudo para trás por vingança? Deixo-vos com estas perguntas retóricas para uma reflexão. Agora não era altura, para Raquel, de olhar para trás. O que estava feito, estava feito. Não poderia ir embora sem qualquer justificação e do nada. Tinha de se recompor. Um dos seus soldados, Lourenço, que tinha ficado no quarto ao seu lado, ouvira o choro de Raquel e apressou-se a consolá-la. Foi o ponto de partida para uma bela amizade, mas isso já são assuntos futuros, não nos desviemos do fio condutor da história.

            Depois de lavar a cara, Raquel sai do quarto e vai até ao ponto de encontro da marcada visita guiada. Foi nessa visita que se aproximou mais de Lourenço, pois, à medida que iam caminhando, o rapaz tentava animá-la com piadas parvas. Disse-lhe, também, que, se precisasse de algum apoio, poderia, sem dúvida, contar com ele.

            Adiante. O templo era algo fenomenal e espetacular; era dos edifícios mais lindos que os olhos de Raquel já tinham observado. Na sala de treino muscular, um dos adolescentes, de nome Gonçalo, deslocou-se até a um dos membros da equipa que vinham em último e perguntara o nome da líder, dando o facto de a ter achado bastante atraente como desculpa.

            Gonçalo Mendes era bem parecido: cabelo loiro, curto e muito espetado, corpo de ginásio, olhos azuis e um sorriso brilhante. Achara ele que teria sido amor à primeira vista? Não seriam já paixões deste tipo a mais na história? Bem… Teremos de aguardar para saber. Seria algo muito improvável, uma vez que Raquel tinha chorado, ainda há poucos minutos, pelo seu namorado. A rapariga sentia uma ligação que nunca tinha sentido por ninguém; eram sentimentos demasiado fortes para serem quebrados, provavelmente.

            Passaram por muitas salas, cada uma com características e objetivos diferentes, mas todas com o mesmo encanto.

            Após terminar a visita ao seu lar nos próximos tempos (ainda indeterminados), Raquel foi jantar a um restaurante de sushi, que era popular naquela zona, para comemorar o início dos treinos. Conseguiu saber um pouco mais sobre cada um dos seus novos amigos.           

            Chegou ao quarto não muito tarde. Por volta das onze horas, na verdade, pois tinha de descansar. Amanhã começava uma nova e difícil etapa da sua vida. Raquel confiava nas suas capacidades e, com certeza, se tornaria uma boa dominante da técnica de combate. E tinha mesmo de o fazer, já que o alvo a derrotar não era fácil.

            Conseguirá Raquel alcançar o seu objetivo?

CAPÍTULO IX - "Conhecimentos"

No dia seguinte, Raquel foi acordada por Lourenço, que já se encontrava pronto para começar a treinar.

- Bom dia, Raquel! – disse Lourenço, entusiasmado. – Está mais do que na hora de acordares! O que é que estás ainda a fazer deitada na cama? Vamos já tomar o pequeno-almoço e começar o plano de força. Não sejas preguiçosa. Toca a levantar!

Raquel resmungou um pouco, mas lembrou-se que, se queria alcançar a sua meta, tinha de começar já a trabalhar arduamente. Pediu licença a Lourenço e vestiu o seu uniforme de treino, um fato longo, bastante confortável, mas um pouco, na óptica da rapariga, feio. Dirigiu-se, logo de seguida, à sala de convívio, onde se localizava o bar e o refeitório, para comer a primeira refeição do dia. Era igual para todos: leite com cereais e uma peça de fruta da época à escolha. Recolheu a sua refeição matinal e sentou-se na mesa de Lourenço, que era acompanhado por alguns soldados da sua equipa.

- Finalmente, Raquel! O dia de hoje não irá ser muito duro, pelo que já soube. Resumidamente, o mestre Konitchiuá vai explicar-nos o que teremos de fazer durante o primeiro mês, ou seja, dar-nos-á um plano de treinos mensal. Isto funciona por secções: cada sala representa um departamento. O templo é composto por três: o psicológico, que te irá ajudar a controlar melhor os teus pensamentos e a não cederes facilmente; o físico, onde irás ser ajudada por treinadores profissionais a ficar em forma e o departamento de combate, no qual irás aprender a comportar-te no campo de batalha e a usar o Kotu da melhor maneira. – explicou Lourenço.

- Parece-me bem! Tenho de me empenhar a cem por centro nisto! – exclamou a jovem, determinada.

Do outro lado da sala, Gonçalo observava, tentando que não desconfiassem, Raquel. Quase se babava para cima dos cereais... A admirada não sabia da sua existência, mas o rapaz queria conhecê-la. Ainda pensou se deveria fazer alguma peripécia para que ela reparasse nele, mas não o chegou a fazer por não ter tido tempo, pois Raquel não demorara mais do que cinco minutos a engolir a comida. Gonçalo era um bom partido; era boa pessoa, apesar de ser um pouco atrevido. Provavelmente, não fazia muito o género de Raquel, mas já não podemos concluir nada, uma vez que os opostos se atraem.

A primeira sala em que Raquel e o seu grupo estariam presentes seria a de treino de força. O mestre explicou o que deveriam fazer durante estes primeiros tempos. Nas outras salas, fez o mesmo. A apresentação demorou toda a manhã.

O grupo foi almoçar e, à tarde, começaram, oficialmente, os treinos. Mestre Konitchiuá tinha estabelecido um horário. Deveriam começar às 8:30h e acabar por voltas das 19:00h, com algumas pausas pelo meio, obviamente.

Acabado o primeiro dia, a equipa reuniu-se e foram jantar todos juntos. Divertiram-se imenso. Estavam felizes pelo facto de o primeiro dia ter corrido bem. Algumas bebidas brancas eram consumidas, mas era só porque era o primeiro dia. Daí para a frente, seria extremamente proibido o consumo de bebidas alcoólicas. A dieta seria muito restrita, pois teriam de estar na melhor forma possível, se queriam, definitivamente, completar a formação. Esta regra não era um problema para Raquel, uma vez que a jovem não era muito dessas coisas, nem tinha vontade para tal; era inteligente e, por isso, sabia o quão prejudicial elas poderiam ser.

O ambiente estava do melhor possível, até que Raquel se lembrou de Bernardo, novamente. Afastou-se para o outro lado da mesa, subitamente. Lourenço nem reparou. Era esta a oportunidade perfeita para Gonçalo avançar. E assim aconteceu. O jovem levanta-se, desloca-se até à sua mesa vizinha e senta-se ao lado da pobre rapariga.

- Olá! Boa noite. Pareceste-me um pouco em baixo, pelo que resolvi vir falar contigo. Não sou muito bom com conselhos, mas pensei que uma palavrinha não faria mal a ninguém – interveio ele.

- Ó, olá. Obrigado pela preocupação. No entanto, não estou com muita vontade de falar sobre o assunto. Só preciso de alguns minutos para voltar ao normal. - retorquiu a jovem, com as lágrimas nos cantos dos olhos.

A conversa, como podem calcular, durou o resto da noite. Certamente, os dois iriam tornar-se bons amigos. 

CAPÍTULO X - "Pormenores"

Vamos mudar um pouco de cenário. Passemos à vida no bairro de Bernardo.

Joana continuava as suas tarefas de mulher-a-dias sem ter notícias do seu filho.

Enquanto isso, no mercado, apareceu uma nova cara, que passava pela banca de Carolina muito frequentemente. Numa dessas visitas, Tiago Narciso, mais conhecido só pelo seu último nome, convidou a dona da banca para um jantar. Esta aceitou, já que o achava muito atraente.

Narciso veio acalmar a fúria que Carolina sentia constantemente, desde o escandaloso incidente (a "guerra" entre ela e os dois irmãos Santos). Estes dois últimos passavam a vida a fazer piadas sobre o "namoro" de Carolina e Mariana e o seu amigo Rodrigo, por não achavam piada a estes encontros desenvolveram uma amizade com eles.

No entanto, surgia um novo rumor na praça onde se realizava o mercado, vindo de Catarina e Joana, que constatavam que Narciso fazia parte de uma ordem religiosa secreta, a "Ordem dos Cabecinhas". Esta história chegou rapidamente aos ouvidos de Carolina, que foi pedir esclarecimentos ao seu amigo colorido. Contudo, mesmo antes de a mesma começar o questionário, Narciso surpreendia-a com um pedido de casamento; o seu local de trabalho estava rodeado de flores e um anel reluzia num rolo de carne. A emoção era tanta que a talhante até se esqueceu do que estava a fazer. Aceitou o pedido sem hesitações.

Depois desta situação, Mariana deixou completamente de falar com Carolina e era, agora, Henrique que ouvia os seus desabafos e lamúrias.

Já Rodrigo e Xico, começaram a ter uma espécie de encontros aos fins-de-semana, onde as principais actividades eram ingerirem grandes quantidades de cerveja e assistirem a jogos de futebol. Numa dessas saídas, em casa de Rodrigo, pelo facto de estarem bêbedos, beijaram-se sem terem noção. No dia seguinte, Rodrigo não se lembrava do sucedido e Xico tentava evitar o contacto com ele.

Catarina começara a estranhar esta falta de conversa e andava a falar disso com a sua amiga, Joana Carola. Quando soube do noivado de Carolina, decidiu abandonar a sua ordem, a "Ordem do arco-íris" e infiltrar-se na "Ordem dos Cabecinhas". Esta era muito mais exigente, mas a senhora de cinquenta e nove anos não fazia intenção de desistir. Continuava a manter-se informada com o auxílio de Joana.

Será que Catarina vai aguentar a pressão? Qual seria a sua intenção com aquela mudança? Quanto a Xico, será que se está a apaixonar pelo amigo ou irá ele deixar que a sua masculinidade tome posse da situação? As respostas a todas estas perguntas encontram-se nos próximos episódios. 

CAPÍTULO XI - "Segredos"

Deixemos, de novo, os escândalos do mercado e voltemos à ação principal.

Depois de conversar umas quatro horas com Gonçalo, Raquel despediu-se e foi para o seu quarto, onde adormeceu em poucos minutos. A conversa noturna tinha sido interessante, dado que Raquel pôde descontrair um pouco e, assim, não sentir saudades de Bernardo nem de casa.          

O seu companheiro de conversa tinha pensado em levá-la ao quarto, mas decidiu que avançar depressa demais seria um erro. Preferia levar tudo calmamente, pois não se queria dar ao luxo de perder alguém como Raquel. E, na minha opinião, tomou a decisão certa. A nossa personagem principal, como já sabemos, não iria sentir-se à vontade. Voltou, por essa razão, para junto dos seus amigos, que já o acompanhavam desde o início dos seus treinos.

- Olha quem é ele, o desaparecido... Então, quem era aquela? Um novo peixe que queres apanhar na tua rede? – interpelou-o um dos seus colegas, num tom de gozo.

Gonçalo limitara-se a mostrar-lhe um sorriso. Desta vez, estava mesmo apaixonado. Sentia que não era só "mais uma", sentia que era a tal.

Quando acabaram de falar e de beber mais uns copos de sangria, resolveram ir para os quartos e  dormir. O relógio marcava quatro e trinta e cinco da manhã quanto deixaram a sala de convívio.

Na manhã seguinte, estavam todos, um pouco antes da hora do pequeno-almoço, já no refeitório. Raquel fazia-se acompanhar da sua equipa e Gonçalo estava com os seus três amigos mais próximos: Lucas, António e João. Cumprimentaram-se os dois, depois de comerem a refeição mais importante do dia em mesas distintas. Não se iriam encontrar ao longo do dia, dado que Gonçalo já estava num nível superior ao da sua suposta alma gémea.

A novata tinha garra e estava a avançar mais rápido do que a maioria dos seus colegas de equipa. "Quanto mais rápido sair daqui, melhor. Portanto, tenho de me esforçar ao máximo a cada dia que passa", pensava Raquel. Gonçalo tinha objectivos traçados contrários: tencionava ficar ali durante o resto da sua vida, a ensinar a técnica a novas pessoas e a defender o templo de possíveis inimigos que poderiam surgir a qualquer momento.

Em cada estágio de treino, o mestre Konitchiuá ia explicando cada exercício e indicando os erros que cada um ia cometendo.

Passaram 5 dias, todos iguais.

A partir do momento em que Raquel e Gonçalo conversaram pela primeira vez, o mesmo começou a suceder-se todas as noites.

Os treinos continuavam intensos. O sábio velho e mestre principal do templo estava a levar todos ao limite.

Às dezasseis horas do sexto dia, o mesmo chamou a equipa à parte. Quando estavam todos reunidos, começou por dizer o seguinte:

- Estão preparados para a próxima etapa, a mais exigente. Quando conseguirem controlar esta técnica, estarão formados em Kotu e poderão, por conseguinte, seguir com a vossa missão. Estão prontos?

- Claro, mestre! – responderam todos, em coro.

Abria-se, diante deles, uma porta secreta, que revelava uma sala revestida de uma espécie de rocha verde. Nela, eram presentes vários outros praticantes que Raquel já tinha conhecido. Era algo impressionante.

- Sejam bem-vindos à Sala dos Segredos. Aqui é onde se treina a técnica sagrada do Kotu. Esta sala permite que cada pessoa se concentre ao máximo, libertando a sua mente, não pensando em mais nada senão no treino. Aqui, as vossas energias serão concentradas num único objetivo comum. Esta divisão tem tamanha importância, que só é mesmo mostrada a quem é suficientemente digo. Quem toma conta desta área é o mestre Xiomi. Ele irá ensinar-vos tudo o que precisam de saber para completarem o vosso treino. Até vos poderia dizer que será fácil, mas estaria a mentir-vos. Serão ensinados a como dominar o vosso interior. Não se esqueçam de ser responsáveis, pois terão um grande poder nas vossas mãos.

Raquel ainda estava assimilar o discurso do mestre. Desde o início que sabia que não seria fácil, mas achava que aquilo seria demais para ela, naquele momento.

Conseguirá ela focar-se novamente? Será que conseguirá sair do templo sem estragos físicos e/ou emocionais? E quanto a Gonçalo? Para descobrirem, fiquem atentos aos próximos episódios. 

CAPÍTULO XII – “Convidados”

            Depois de explorarem mais minuciosamente a nova sala secreta, como os estômagos da equipa já começavam a “rosnar”, foram jantar. Quando se sentaram, eram cerca de sete horas e, quando Raquel comeu a última garfada de arroz, já passavam das nove. A habitual conversa de Gonçalo e Raquel teve término por volta das dez da noite, mais cedo do que o costume. Dirigiram-se os dois até aos seus respetivos aposentos e rapidamente adormeceram, uma vez que estavam exaustos, por conta do treino diário intenso.

            No dia seguinte, levantaram-se todos mais cedo do que o habitual, já que o supremo Mestre tinha pedido que ficassem mais tempo na Sala dos Segredos. A técnica era difícil de controlar pelo facto de ser muito poderosa e, por isso, exigia muito treino. Depois de tomarem o pequeno-almoço, foram para a divisão onde iriam aprender, pela primeira vez, os pormenores sobre a técnica número um do Kotu.

            Quando chegaram, o Mestre Xiomi já os esperava.

            -Hoje, têm a sala só para o vosso grupo. O Mestre Konitchiuá disse-me que vocês precisavam de adquirir esta técnica rapidamente e, por isso, decidi tirar um dia apenas para vos explicar todos os pormenores detalhadamente. As primeiras quatro horas diárias irão ter um caráter mais teórico, mas não se preocupem, pois vamos ter muitas horas de treino prático. O processo divide-se em três partes: teoria, prática e meditação. A primeira baseia-se nos pormenores, dicas e caraterísticas sobre a técnica; a prática consiste no que o nome indica, isto é, tentarem executar a técnica o maior número de vezes possíveis, até que tenham controlo total da mesma; finalmente, a meditação é uma parte muito importante, pois é com a sua ajuda que irão aprender os pontos cruciais que vos ajudarão a conseguir ter o domínio da técnica nas mais diversas situações. Tendo estes tópicos todos adquiridos, estarão formados em Kotu.

            Terminada a explicação geral, a equipa foi levada pelos ajudantes do Mestre para uma parte da sala onde iriam, todas as manhãs, aprender a teoria.

            -Bem, acho que a primeira coisa a saber é o nome da técnica, não é mesmo? O nome da nossa técnica sagrada é “esfera infinita”. – começou Xiaomi.

            O professor continuou o seu discurso durante algumas horas e Raquel e os amigos tentavam prestar atenção a todas as suas palavras.

            A hora de almoço tinha chegado. Raquel tinha combinado almoçar com Gonçalo. Estava tão contente! A sua evolução era, de facto, notável. Estava cada vez mais forte. Sentia-se confiante e acreditava que conseguia derrotar Ricardo. Confiava muito na sua equipa; sabia que nunca a iriam desapontar.

            Era sexta-feira, último dia da semana. Naquela noite, iria decorrer um dos maiores eventos do templo: os “Kotu Awards”, uma cerimónia onde alguns alunos iriam ser distinguidos pelo seu mérito ao longo da sua estadia no templo.

            Gonçalo apaixonava-se mais a cada dia que passava… Amava Raquel profunda e verdadeiramente. Quando estava com ela, sentia-se uma pessoa diferente. Sentia-se bem. Decidiu, por essas razões, ter coragem e fazer-lhe um pedido:

            -Raquel, tenho algo para te dizer, meu amor.  – disse Gonçalo, chamando Raquel o que gostava de, normalmente, a apelidar. –Seria do teu agrado acompanhares-me no evento de hoje? Gostaria muito que estivesses presente na minha companhia.

            -Claro. Porque não? Vai ser divertido! – respondeu, sem hesitar, a requisitada.

            Gonçalo mostrou uma cara de satisfação. Quando acabaram o almoço, os dois voltaram aos treinos.

            O dia ia passando lentamente. A parte prática prometida pelo mestre Xiomi tinha sido adiada. Sem ela, o treino tornou-se um pouco secante, na opinião de Raquel. Tentava, ao máximo, captar toda a informação que lhe estavam a tentar transmitir, mas, por vezes, era um pouco difícil. Ao final do dia, só pensava mesmo na noite. Estava ansiosa por um pouco de diversão e de liberdade.

            Acabados os treinos, era hora da festa! Raquel tinha de se preparar para a noite de gala. O tema deste ano era liberdade. A filha de Tomás pensou que o vestido preto da Chanel, que tinha trazido consigo, era adequado para a cerimónia. Em termos de acessórios, uns brincos prateados eram a escolha da noite. Os sapatos eram uns saltos altos finos com uma fita prateada, a condizer com os brincos. O vestido era, sem dúvida, deslumbrante; tinha um decote um pouco ousado, era aberto nas costas e caía aos pés da elegante rapariga.

            A companhia de Gonçalo era uma mulher forte e trabalhadora, mas também possuía aquele lado de mulher sensível, que gostava de parecer bem e revelar-se bonita aos olhos dos outros.

            Colocou maquilhagem, vestiu-se e calçou-se, posteriormente a tomar um longo banho e de arranjar o cabelo.

            Só faltava, agora, aguardar um pouco, até que Gonçalo, como tinham combinado, a viesse buscar.

            Não demorou muito até que o seu par aparecesse. Quando Raquel abriu a porta, surgiu um homem com um bom físico, aperaltado e com um cabelo quase perfeito. Vestia um fato com um laço prateado, que combinava com o visual de Raquel.

CAPÍTULO XIII – “Festa da traição”

       Mal os primeiros pormenores do rosto de Raquel surgiram através da porta entreaberta, Gonçalo já permanecia de boca aberta e com os olhos a brilhar. Percebia, cada vez mais, que estava completamente apaixonado por aquela pessoa.

            Gonçalo não tinha conhecimento da existência de Bernardo e pensava que conseguiria conquistar Raquel naquela noite, talvez quando passasse uma boa música para os dois dançarem. Pensava que só precisava de um pouco mais de emoção.

            -Tu estás… estás… completamente maravilhosa – gaguejou Gonçalo.

            Raquel lançou-lhe um sorriso maroto.

            -Bem, eu esforcei-me… Obrigado. Igualmente para ti. Até estamos a combinar. Como é que isto aconteceu? – interrogou-se Raquel, num tom risonho.

            Gonçalo também não sabia, mas era mais uma coincidência vantajosa. Parecia que o destino estava a favor da fração masculina do par e que todos os elementos se uniam para que ele conseguisse chegar ao seu objetivo.         

            Entrelaçaram os braços e foram em direção ao grande pavilhão, onde iria acontecer a importante cerimónia. Os dois estavam empenhados em ganhar o prémio de “melhor par”, que consistia numa votação ao longo da noite.

            Abriram as portas do salão, onde eram presentes grandes colunas que emitiam algumas músicas clássicas. Caminharam até à zona das mesas, local dos jantares. Toda a gente os fitava constantemente. Pelo que podemos entender, eram a principal atração da noite. Seria por causa de estarem os dois juntos ou apenas por estarem ambos deslumbrantes? Acho que podemos concluir que era um pouco de ambos.

            De repente, a atenção desviou-se para o palco. O Mestre Konitchiuá tinha chegado e iria dar início aos “Kotu Awards”. Não era um homem de muitas palavras, apesar da sua sabedoria imensa.

            -Sejam muito bem-vindos ao grande evento do templo. Este ano é especial, pois celebramos cem anos de existência, de muita disciplina e dedicação. Espero que tudo esteja do vosso agrado. Ao longo da noite, iremos proceder à entrega de três prémios. O jantar será servido dentro de momentos. Obrigado e boa continuação.

            Passado poucos minutos, Raquel já estava a levar a primeira colher de sopa de legumes à boca.        

            Os integrantes da mesa eram os membros da sua equipa, como Lourenço e Pedro, e mais dois que, no começo, eram desconhecidos, mas que rapidamente fizeram amizade com todos.

            Os empregados da empresa responsável pela comida retiravam pratos vazios; pelo visto, o primeiro prato tinha agradado a todos.

            Viu-se o Mestre Konitchiuá levantar-se da sua mesa e a subir ao palco. A música baixou de volume e o velhote começou:

            -É altura para entregar o primeiro prémio da noite, o Prémio de Controlo. Este destina-se a quem conseguiu mostrar que tem natural aptidão para o Kotu. A pessoa que irei chamar é um aluno bastante empenhado, que sempre demonstrou interesse e entusiasmo durante todo o seu percurso.

            Raquel e Gonçalo ouviam atenta e alegremente o Mestre e os dois ficaram espantados quando o meso exclamou ao microfone:

            -Gonçalo Soares, podes subir ao palco!

            Uma grande salva de palmas fez-se ouvir e todos os seus amigos próximos foram dar-lhe um grande abraço de grupo, felicitando-o por mais uma conquista na sua carreira.

            A sua acompanhante vibrava de emoção; quem diria que um dos seus melhores amigos ganhara um prémio daquele calibre… Não podia estar mais orgulhosa!

            Depois de discursar umas breves palavras, voltou para o seu lugar. O dia não poderia estar a correr melhor: já tinha ganho um prémio e estava na companhia de quem realmente amava.

            O segundo prato, um fantástico arroz de prato, já estava a ser devorado por Gonçalo, a certa altura. Os elementos da mesa já estavam todos um pouco fora de si. Especialmente Raquel, uma vez que nunca tinha brindado tantas vezes em tão pouco tempo. Por não estar habituada àquelas concentrações de álcool no sangue, quase que já estava a cair para o lado, literalmente. No entanto, estava a tentar seguir o famoso ditado português: “Festa é festa”.

            O próximo anunciador de prémios, Mestre Xiomi, subia, agora ao palco.

            -O segundo prémio denomina-se por “Prémio de Empenho”. Penso que o nome já diz tudo. O merecedor do mesmo é uma pessoa que se tem empenhado verdadeiramente nos últimos tempos. Embora não tenha, talvez, tanta capacidade como outros alunos, treina arduamente para conseguir alcançar os seus objetivos o mais rápido possível. – proclamou, na sua voz alta e um tanto ríspida. – A distinção vai para… Lourenço da Silva!

            Um sorriso brilhante e uns olhos esbugalhados invadiram a cara do melhor amigo de Raquel. A última levantou-se repentinamente e deu um grande abraço ao seu colega de equipa, que a retribuiu da mesma forma.

            -Eras a pessoa que mais merecia isto, Lourenço. E acredita que eu sei bem disso. Adoro-te e continua como sempre tens feito. Com esse espírito, não duvido, de todo, que chegarás muito longe. –segredou a Lourenço a sua amiga.

            Lourenço respondeu com um “obrigado” e outro grande abraço, desta vez acompanhado de um beijo, e correu até ao palco. Sentia-se, pela primeira vez em muito tempo, orgulhoso de si próprio. Começou a sentir-se uma pessoa mais confiante a partir daquele momento. Sentia-se uma pessoa melhor, pelo facto de todo o seu esforço estar a ser, finalmente, reconhecido.

            -Bem, eu não sei bem o que dizer. Não estou habituado a receber este tipo de coisas. Só queria agradecer a todos os meus amigos e colegas de equipa, que sempre me motivaram e apoiaram. E claro, aos meus dois mestres. Nada disto seria possível sem a colaboração de todos vocês. – disse Lourenço, um pouco envergonhado, ao microfone.

            Posteriormente, voltou à sua mesa. A noite estava a ficar mais e mais empolgada a cada segundo que passava.

            Um apetitoso cheesecake de manga estava a ser servido. Era, para Raquel, a melhor parte do jantar. Poderia dizer-se que a jovem era gulosa.

            A rapariga ia a meio da sua segunda sobremesa quando foi anunciado que a votação para par da noite iria encerrar dentro de momentos. O vencedor seria, por isso, anunciado dentro de alguns minutos, em princípio.

            Acabados os doces, o grupo pensou que era boa altura para mais alguma bebida branca. A glicose que tinha ingerido não tinha adiantado nada; Raquel já não estava, de todo, normal.

            O ensurdecedor barulho que provinha das colunas sempre que o microfone se ligava ecoou por toda a sala, surgindo a voz de Mestre Konitchiuá, que já se encontrava em cima do palco.

            -Fizemos a contagem dos votos e concluímos que o melhor par, por voto popular, é… - proferia o Mestre, enquanto já ressoavam os tambores. – Raquel e Gonçalo!!!

            A música característica de Award Shows estava a ser reproduzida e ambos os elementos do par pulavam e gritavam de alegria. Nem estavam a acreditar que tinham ganho. Sentiam-se adorados e admirados. Dirigiram-se ao palco de mãos dados e a cantarolar e sorrir. Toda a gente os felicitava, ao longo do curto caminho, referindo que o prémio tinha sido mais do que merecido, pelo facto de ficarem tão bem juntos.

            Receberam o prémio e ergueram-no em conjunto. Desta vez, nem houve discurso. Gonçalo pegou em Raquel ao colo e levou-a até aos seus lugares. A rapariga ria descontroladamente e já nem sabia bem o que estava a fazer. Contou que tinha de ir à casa de banho. O rapaz seguiu-a e esperou-a à saída da divisão.

            Raquel já não estava a pensar pela sua cabeça e puxava Gonçalo ao longo do correr, após ter desmanchado o seu cabelo e tirado os sapatos. Continuava às gargalhadas desalmadamente. Ia, também, de vez em quando, mordendo os lábios, parecendo que queria provocar Gonçalo, que ia ficando cada vez mais excitado.

            O destino final era o quarto. Raquel chegou uns segundos antes, tempo suficiente para entrar na casa de banho. Gonçalo chegou e tinha-se deitado na cama. Conseguia ouvir Raquel a dizer coisas sem nexo dentro da pequena divisão. Quando saiu, o jovem tomou uma iniciativa precipitada e disse-lhe que não conseguia aguentar mais. Puxou-a para cima do seu corpo. Raquel não disse que não a toda aquela conversa. Fizeram sexo naquela noite.

            Quando acabou, Raquel nem teve tempo de refletir sobre o que tinha feito, pois todos aqueles acontecimentos tinham feito com que ficasse bastante cansada. Por essa razão, adormeceu mal fechou os olhos.

            Terá Raquel agido assim apenas por efeito do álcool ou estaria mesmo a começar a apaixonar-se por Gonçalo? Como irá reagir Bernardo assim que souber de toda esta história?

CAPÍTULO XIV – “Pensa, Raquel!”

            Dormiram até tarde. Aliás, muito tarde; já passavam das duas e meia da tarde quando Raquel se espreguiçou pela primeira vez, ainda não muito consciente do que haveria feito com Gonçalo, que, para seu espanto, encontrava-se ainda adormecido ao seu lado.

            Quando deu conta do rapaz, as memórias vieram-lhe à cabeça e começou a entrar em pânico. Saiu rapidamente do quarto para não ficar embaraçada ao falar com o que tinha sido o seu acompanhante naquela noite. “Raquel, o que é que fizeste?”, interrogava-se. Como não estava habituada ao álcool, sobre o efeito dele, tinha feito coisas que, agora, se arrependia.

            Correu em direção ao refeitório, onde já estava a ser servido o almoço. Tentava disfarçar, mas toda a gente a olhava com um ar de riso.

            -Então, como foi a noite? – perguntava um dos amigos de Gonçalo, Rui. – Ele é potente?

            Raquel baixava a cabeça, à medida que as gargalhadas iam surgindo por toda a sala. Uma lágrima escorreu-lhe pelo rosto e acabou por cair para o seu bife de porco. Não tinha vindo àquele sítio para passar destas vergonhas.

            Lourenço sentou-se perto dela e tentou conversar, mas a sua amiga não estava a precisar de desabafos, naquele momento. Precisava de ficar sozinha, explicou-lhe ela. Foi arrumar, por isso, o seu tabuleiro e deixou a divisão.

            Ao caminhar pelo corredor, não conseguia conter o choro. O que faria agora? Bernardo era quem, sem dúvida, realmente amava, mas, mesmo que o álcool tivesse falado mais alto, não podia negar que sentia algo (nem que fosse mínimo) por Gonçalo.

            A irmã de Ricardo chegou ao quarto e, felizmente, Gonçalo já não se encontrava na cama. Relaxou um pouco até decidir ir tomar banho. Abre a porta e…

            -Olá, Raquel! Achei que não havia problema em tomar banho aqui. Espero que não te importes, amor.

            A proprietária do quarto, ao ver o corpo nu de Gonçalo, que ainda enxugava a água do seu corpo com uma pequena toalha de mãos, fechou a porta e sentou-se na cama, passando as mãos na cara com uma postura nervosa e preocupada. Ali permaneceu até o seu “amigo” estar pronto.

            -O que é que tens? – questionou-lhe ele. – Há algum problema em estar aqui? Eu adorei esta noite e pensei que tínhamos, finalmente, criado algum tipo de ligação mais forte, entendes? Eu sinto algo muito profundo e sincero por ti e, quando estou contigo, sinto-me a pessoa mais feliz do mundo. Não sei se entendes mas eu amo-te desde as primeiras conversas que tivemos.

            No final destas palavras, a cabeça da amada de Gonçalo estava uma confusão.

            -Gonçalo, eu não sei o que te dizer. Nunca pensei que sentisses algo mais do que amizade por mim. Sabes que eu te adoro, mas não consigo sentir o mesmo por ti…

            -Mas, mas… Então porque é que… tu sabes… fizemos o que fizemos?

            -Não sei. Não mesmo. E arrependo-me, muito sinceramente. Eu amo outro rapaz; é a ele a quem o meu coração pertence. Isto foi apenas um mal entendido. A culpa é minha por te fazer pensar outra coisa. Peço que me perdoes e que esqueçamos isto. Sei que nada vai voltar a ser como era anteriormente, no entanto, é assim que deve e tem de ser.

            -Bebé, não digas isso. – retorquiu Gonçalo, aproximando-se de Raquel. – Preciso de lembrar-te do quão boa foi a última noite? Podemos repetir agora mesmo.

            O rapaz começava a tornar-se demasiado invasivo.

            -Para, por favor – disse Raquel, já um pouco assustada, empurrando-o com os pés.

            A sua manobra de defesa não resultou e Gonçalo continuava com as suas tentativas de ter relações novamente. Ia tirando as suas peças de roupa. Raquel estava indefesa; era impossível conseguir fazer-lhe frente. Estaria mesmo ele a fazer uma coisa daquelas? Parece que não era bem quem aparentava ser.

            Raquel tentava libertar-se, mas sem sucesso. Tentar gritar era inútil, pois estava com uma camisola na boca, o que a impedia de o fazer.

            Gonçalo estava a abusar cada vez mais até que, certa altura, se ouviram alguns passos perto do quarto. Era Mestre Konitchiuá, que tinha vindo saber se estava tudo bem, uma vez que a aluna não tinha comparecido aos treinos, algo que não era próprio dela. Quando percebeu o que estava a acontecer, chamou os guardas que chegaram em poucos segundos, mesmo antes de Gonçalo ter tempo de se vestir. Prenderam-lhe as mãos com uma corda e colocaram-no em frente ao supremo Mestre.

            -Envergonhas este templo e não mereces ser portador de todo o conhecimento sobre esta técnica lendária. Estás, por mau comportamento, expulso, para sempre, deste local! Não ouses a cá voltar nunca mais!

            Gonçalo foi levado para fora do quarto.

            Posteriormente a esta ordem direta e furiosa, dirigiu-se a Raquel, que se encontrava no canto do quarto, sentada a chorar, extremamente chocada com aquela situação.

            -Lamento imenso pelo sucedido. Prometo que nunca mais o voltarás a ver. Espero que consigas ultrapassar tudo isto. Não te consigo ajudar nisso. Uma pessoa com tanta força espírito como tu consegue derrubar qualquer obstáculo que encontre na sua vida. Acredita no que te digo. Estás dispensada, por hoje, dos treinos. Por favor, fala com os teus amigos ou com quem te sentires melhor. Se quiseres, também estou disponível, apesar de não me considerar a melhor pessoa para resolver esse tipo de problemas. Tudo vai, como já te disse, depender imensamente de ti. Descansa, por agora. Até amanhã. – finalizou Mestre Konitchiuá, deixando o quarto.

CAPÍTULO XV – “Desilusões”

            Em vez de seguir o conselho do Mestre, Raquel manteve-se acordada durante toda a noite. Nunca iria conseguir “pregar olho” naquelas circunstâncias. Até ao aparecer do primeiro raio de sol, as memórias com Bernardo iam passando-lhe pela cabeça, quase como se tivesse a ver um filme. Isso fazia com que se sentisse um pouco melhor, pois sabia que, em princípio, o seu namorado iria compreender todos aqueles mal entendidos.

            A rapariga estava muito cansada e precisava de um pouco de paz. Então, decidiu ir até ao ribeiro que passava junto ao templo, de uma água tão cristalina que até era possível observar o reflexo do nosso próprio rosto. Vestiu um dos uniformes de treino e seguiu até ao seu destino.

            Já se observava a magnífica Sakura do templo, uma árvore centenária, que, supostamente, enchia de alegria a quem lhe tocasse ou apenas observasse as suas estonteantes folhas. Rezava a lenda que o Mestre Kotinuá, o inventor do Kotu, treinava ali a sua técnica sagrada, ajudado por aquela espécie vegetal, que o auxiliava a manter a concentração.

            Um pequeno sorriso, mas significativo, naquela altura, já se encontrava na cara de Raquel. Era incrível o facto de como tudo aquilo era capaz de transmitir toda aquela energia positiva.          

            No entanto, a felicidade não iria durar muito mais tempo. À medida que se ia aproximando das águas, que corriam com alguma intensidade por ter chovido nas últimas quatro noites, era cada vez mais fácil, para quem ali caminhava, observar uns pés no meio daqueles ramos. O pânico apoderou-se do corpo de Raquel. Teria alguém acabado com a sua vida ali mesmo?

            Correu até à árvore e infiltrou-se na mesma para que conseguisse saber quem era a personagem que tinha armado aquele “espetáculo” horroroso.

            Mal viu a cara, Raquel quase caía para trás. Afastava-se cada vez mais, estupefacta, até que tropeçou numa pedra, que provocou uma queda para dentro do ribeiro. Ficou sentada durante alguns segundos, até que decide ganhar coragem, levantar-se e procurar o Mestre Konitchiuá. Por sua sorte, o velho encontrava-se a meio da sua meditação diária, na varanda do edifício.

            -Mestre, Mestre! – interviu Raquel, assustada. – O Gonçalo, o Gonçalo!... enforcou-se na Sakura Kotuana! – exclamou Raquel, aos soluços.

            O Mestre apressou-se a sair da sua varanda e, depois de chamar os guardas, foram todos até ao local indicado por Raquel.

            -Não acredito nisto. Um miúdo tão talentoso, que, por causa de um erro, arruinou a sua vida… Talvez eu tenha sido demasiado rude com ele. Talvez ele não tenha feito com intenção. No entanto, as regras têm de ser cumpridas à risca. Que a sua alma descanse em paz. – proferiu.

            Raquel não os tinha acompanhado, mas, no dia seguinte, compareceu no funeral, onde as cinzas de Gonçalo foram lançadas ao vento, num penhasco ali perto, tal como todos os outros que outrora se sacrificaram pelo Kotu ou tiveram alguma relação com ele.

            Muitos choravam descontroladamente. Era uma situação, de facto, triste para muitos alunos, uma vez que quem tinha partido era conhecido e apreciado por uma grande quantidade de pessoas.

            Raquel já quase que nem tinha lágrimas para deitar cá para fora… Tinham sido desilusões atrás de desilusões.

            Estão todos a passar por um período bastante dramático, chocante e com um grande impacto. Só podemos acreditar que Raquel e a sua equipa consigam ultrapassar tudo isto o mais rápido possível, já que, como todos sabemos, ainda existe trabalho a fazer.

CAPÍTULO XVI - "Terminais"

Era de imaginar como estaria a cabeça de Raquel a seguir de todo aquele alarido. Sim, sentia-se completamente de rastos. Apesar de ter odiado Gonçalo por ele a ter tentado violar, não podia negar que sempre sentira algo mais do que amizade por ele. Claramente que não o amava como a Bernardo; disso ela tinha consciência. No entanto, sempre sentira um carinho especial por ele. Por essas razões, a morte dele não seria um acontecimento fácil de superar.

            No seu estado atual, a rapariga que procurava vingança pelo seu irmão, na sua  opinião, não estava apta para continuar com os treinos. Dirigiu-se ao gabinete oficial do Mestre Konitchiuá.

            -Mestre, peço imensa desculpas, mas não consigo terminar o meu percurso agora, depois de tudo o que se passou. – começou Raquel – Vejo-me obrigada a suspender os treinos durante algum tempo.

            -Bem, poderia dizer que não era compreensível, mas estaria a mentir. Sei que tudo isto afetou em alto nível toda a gente do templo. Dou-te, no máximo, um mês para descansares e voltares a uma posição que te seja mais confortável. É meu dever informar-te que, contudo, poderás não conseguir acompanhar os restantes elementos da tua equipa. Poderás, por isso, sair daqui algum tempo depois deles…

            Raquel soltou um suspiro prolongado e consentiu com a cabeça, desviando o olhar e dizendo:

            -Entendo. Quando me recompuser, arranjei forças suficientes para me formar ao mesmo tempo que eles. Prometo.

            Os meses seguintes consistiram todos na mesma rotina: acordava de manhã cedo, meditava, convivia um pouco com os seus amigos no intervalo para o almoço (já que eles tinham de dedicar a maioria do seu tempo aos treinos) e ao jantar tentava desabafar particularmente com o seu melhor amigo.

            Um mês que se passou muito lentamente. Era agora tempo de voltar à prática. Nos últimos dias de descanso, já parecia Raquel outra pessoa, pois revelava-se, agora, muito mais alegre e confiante. Todo aquele tempo tinha-a ajudado a mentalizar-se sobre as melhores formas de como lidar com os seus problemas e conflitos interiores. O tempo, de facto, pode curar muita coisa. Nem tudo, é verdade; mas muitas coisas.

            A previsão de finalização desta etapa seria de apenas um mês para a sua equipa, pelo que a líder tinha de se empenhar ao máximo para os conseguir, novamente, alcançar.

            Felizmente, passada apenas uma semana, Raquel já tinha terminado o treino físico e estava muito perto da conclusão do mental. Podia passar à etapa mais difícil: dominar a técnica secreta.       

            Como Lourenço já estava quase a conseguir o controlo total da mesma, ensinava Raquel o que tinha aprendido durante o tempo da sua ausência quando tinha algum tempo, nomeadamente depois do jantar, quando a sala estava vazia e tinham todo o espaço só para eles. Com a sua ajuda, dois dias antes da cerimónia de formação, a amada de Bernardo já conseguia ter domínio completo da lendária técnica do Kotu.

            Ao contrário do mês depois da morte de Gonçalo, o tempo de treinos tinha passado muito rapidamente e, quando Raquel foi a olhar mais especificamente para o calendário, apercebeu-se de que já estavam na véspera do importante dia da formação. No final da noite, chegaram as cartas e, para alívio deles, todos tinham sido convocados. Tinham conseguido! O esforço tinha compensado! Um abraço de grupo foi realizado. Pulavam de alegria e tinham razão para isso. Afinal, o que é melhor do que conseguir alcançar os nossos objetivos?

            No dia seguinte, o grande dia, todos apareceram muito aperaltados. A cerimónia, sinceramente, foi algo bastante simples. O Mestre Konitchiuá ia chamando cada aluno ao palco, a quem entregava um diploma e uma pequena estatueta.

            -Muitos parabéns! Espero que os veja novamente num futuro próximo. Estão, finalmente, oficialmente formados em Kotu, uma das técnicas lendárias da China.

            Aquele momento foi tão importante que Raquel, para variar, soltou lágrimas de alegria.

            As malas já tinham sido preparadas no dia anterior. Estava tudo preparado para a partida, incluindo o jato que Raquel tinha contratado para regressarem.

            Após uns longos oito meses, Raquel iria voltar à sua terra que tanto amava. A sua chegada iria ser uma surpresa para todos. Estava previsto comprar um ramo de flores para os seus pais e, para Bernardo, tinha trazido uma pequena lembrança do templo, uma pedra da Sala dos Segredos, um diamante verde, que o Mestre Konitchiuá lhe tinha oferecido como recompensa por ter superado as suas expetativas.

            A viagem parecia nunca mais acabar por causa da ansiedade de ver as pessoas pelas quais cada um sente tanto amor e saudade. Enquanto alguns rapazes mais tolos se divertiam a dizer parvoíces às empregadas de bordo, Raquel limitava-se a beber um copo de vinho branco com Lourenço, o mais civilizado.

            Passadas cinco horas dentro daquele meio de transporte, Raquel achou que era altura para assistir, pela quase centésima vez, a saga “Hunger Games”, na qual estreava a sua atriz preferida, Jennifer Lawrence.  A meio do terceiro filme, o piloto avisou que iriam começar a descer. Cerca de vinte minutos depois dessa mensagem, o jato já tocava com as rodas na pista de aterragem.

            Saíram em fila indiana e esperaram uns pelos outros ali perto. As despedidas eram feitas, apesar de serem momentâneas, pois, em pouco tempo, teriam de se voltar a reunir para discutir estratégias.

            Dirigiram-se aos táxis que os iriam levar às suas casas. Raquel foi a primeira a ser deixada. Tocou à campainha e a porta foi aberta por Bernardo. A rapariga não resistiu e, mal o viu, deu-lhe um enorme beijo.

            -Eu devia era mesmo dar-te uma chapada por não me teres contado nada… Mas estou tão feliz por te ver que só te quero abraçar. – interrompeu-a Bernardo , olhando para o grande sorriso que se encontrava na cara da sua namorada.

            Agora era a vez dos seus pais, as pessoas por quem Raquel tinha feito tudo isto. Correram os dois em direção a ela depois de perceberem que já tinha acabado o reencontro. Deram-lhe os dois um abraço longo e amoroso.

            -Nunca mais penses sequer em nos deixar desta forma e por tanto tempo. – lamentou-se Tomás – Agora, conta-nos tudo!

            Sentaram-se no sofá e Raquel começou a contar a história da sua viagem e explicar porque é que tinha decidido que era necessário aquele esquema todo.

            -Então, vamos lá… Saí de manhã cedo. Era suposto ninguém ter dado por isso, mas…

            A altura de matar todas as saudades tinha chegado, para agrado da jovem. Antes de partir para a próxima etapa do seu plano, tinha de passar algum tempo com a sua família e namorado. Esperemos que Ricardo não tenha qualquer jogada em mente nestes próximos tempos.




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